Fundação de Helvetia

Aquisição das propriedades e formação da comunidade

Em 14 de abril de 1888, as famílias Ambiel, Amstalden, Bannwart e Wolf compraram de Vicente Sampaio Goes o sítio Capivari-Mirim e parte do sítio Serra D’Água, ao longo do Rio Capivari Mirim.

O contrato foi registrado no dia 13 de abril, no Cartório da Comarca de ltu. A área adquirida tinha 468 alqueires.

As condições da propriedade adquirida não ofereciam muito conforto aos novos proprietários. Não eram muitas as benfeitorias, nem de boa qualidade. Pouco importava. Acostumados à pobreza, devem ter-se sentido muito bem instalados em casebres e tulhas que agora eram seus. Dizem as crônicas da época que, só com a 1.a safra de café, conseguiram pagar a metade do empréstimo feito. O restante foi saldado pontualmente no tempo aprazado.

Nos seis primeiros anos as quatro famílias trabalharam em comum. Em 1894 dividiram a propriedade em quatro partes iguais, reservando um alqueire para a futura construção da Escola e da Igreja.

A propriedade não tinha nome, mas, espontaneamente, respeitando as origens étnicas e a experiência histórica e cultural dos pioneiros e fundadores, começaram a chamá-la de “Colônia Helvetia”. Da Suíça, o termo “Helvetia”; da experiência dos imigrantes nas fazendas do Brasil, o termo “Colônia”. De fato, “colônia”, na cultura brasileira, significava o conjunto das casas onde moravam os “colonos”, empregados dos fazendeiros. Posteriormente passou a significar a propriedade e a comunidade formada por imigrantes de uma mesma origem étnica. Os descendentes dos fundadores têm orgulho do nome do lugar onde nasceram. De um certo modo o nome define a sua identidade, as suas raízes.

É fácil imaginar o empenho e a alegria com que os novos proprietários se dedicavam ao trabalho no campo. É confortável, ao mesmo tempo, avaliar o resultado deste esforço.
De fato, em pouco tempo, outras fazendas e sítios foram sendo adquiridos, quer pelas famílias fundadoras, quer por parentes ou compatriotas que trabalhavam nas fazendas da região.
Helvetia passa a ser o pólo em torno do qual os imigrantes de Obwalden começam a se aglutinar.

Desenvolvimento econômico e expansão territorial

O movimento migratório visava substituir gradualmente o braço escravo na agricultura. As velhas oligarquias rurais, acostumadas ao regime da escravidão, não souberam se adaptar aos novos tempos. Daí o insucesso do sistema de parceria na sua quase totalidade.

Com a abolição da escravatura em 1888, sem a mão-de-obra barata, era inevitável a crise na agricultura, bem como em outros setores da economia.

Enquanto a aristocracia rural mais progressista buscava novas formas de organização da economia no campo, as terras começaram a perder valor. Foi a oportunidade que os colonos suíços tiveram de se tornar proprietários. Com a poupança que conseguiram acumular e com algum apoio financeiro começaram a comprar sítios e fazendas na região de Jundiaí e Campinas.

Os tempos eram favoráveis. Por todo o oeste do Estado de São Paulo, o café, muito bem cotado no mercado internacional, passa a dominar a paisagem agrícola paulista, dando início à afirmação da hegemonia do Estado perante as outras unidades da Federação.

Também em Helvetia, a cultura do café era largamente dominante. Plantava-se também milho, feijão, arroz e outros produtos, mas apenas para a subsistência. Também, só para o consumo interno e para os trabalhos na terra, criavam-se aves e animais.

Em 1900, doze anos após a fundação, Helvetia já se estendia por uma área duas vezes superior à inicial. Corno explicar tamanho sucesso? Além dos fatores favoráveis da conjuntura econômica da região, parece que uma das razões fundamentais reside no fato de que a unidade produtiva principal era a família. Geralmente muito numerosas, todos os seus membros, crianças, jovens, adultos e velhos, trabalhavam. Não havia, salvo raríssimas exceções, empregados assalariados. Havia, sim, uma certa divisão do trabalho, mas não era rígida. As mulheres e crianças cuidavam da casa, da horta e dos animais. Os homens, das plantações. Mas não era raro verem-se mulheres e crianças ajudando na carpa e colheita dos produtos cultivados. Sinal evidente do progresso, que ainda hoje podemos visualizar na paisagem de Helvetia, foram às construções das casas, que pela primeira vez no Brasil passaram a ser uma moradia condigna para os imigrantes. A maioria delas foi construída entre 1900 e 1910. Nas duas décadas seguintes outras se juntaram a elas, com igual, ou melhor, qualidade. Mas antes de construírem suas próprias casas, cuidaram os helvetianos de construir o prédio da Escola (1893) e da Igreja (1898-1899). Construções sólidas e bonitas, ainda hoje reconhecidas como tais. A Igreja, no estilo e na estrutura, reproduz as linhas arquitetônicas da sua similar em Giswil. A Escola já obedece ao estilo dominante no Brasil-império. As casas compõem elementos trazidos da Suíça com as exigências impostas pelo clima tropical.

No período que vai de 1900 a 1930, solidamente fundada na cultura do café, Helvetia consolida sua economia e seu progresso. Ao seu redor, muitas outras fazendas e sítios são adquiridos pelos descendentes dos pioneiros de 1854 e dos fundadores de 1888. Difícil delimitar a área. Elas invadem os bairros e municípios de Indaiatuba, Monte-Mor, Campinas, Valinhos, Vinhedo e Jundiaí.

Mas as fronteiras agrícolas, aos poucos, foram se esgotando. Não havia mais terras à venda ou a preços compensadores. Algumas famílias migraram, então, para regiões mais distantes, principalmente para o Noroeste do Estado.

Diversificação das atividades agrícolas – Crise do café – Partilhas de terras

A crise econômica mundial representada pela quebra da bolsa de Nova York, em 1929, teve sérias repercussões no Brasil, apoiado na monocultura do café. Helvetia também sofreu as suas conseqüências, mas não a ponto de ver abalada a sua economia. Apenas modificou, em parte, o perfil de sua atividade produtiva, nos 15 anos seguintes. Os cafezais, símbolo do progresso da Colônia, foram quase todos preservados e cuidados, mas os novos investimentos se centraram principalmente na cultura do algodão, que alcançava boa cotação nos mercados internacional e interno com o desenvolvimento da indústria têxtil.

As propriedades dos fundadores já sofreram, ao longo dos cem anos, pelo menos uma dupla partilha. A primeira, entre os seus filhos (1.a geração); a segunda entre seus netos (2.a geração). Se lembrarmos o grande número de filhos que constituíam as famílias, fica evidente por que, por maiores que fossem as áreas divididas, Helvetia hoje se constitui de um grande número de minifúndios. Já não se fala mais em fazendas ou sítios, mas em chácaras. Disso resulta a gradual mudança no perfil de suas atividades econômicas. Áreas pequenas não permitem uma agricultura extensiva. Não permitem grandes investimentos em implementos agrícolas e nem são suficientes para a manutenção de famílias com um grande número de membros. Muitos helvetianos abandonam a atividade agrícola e vão buscar nas cidades vizinhas outras formas de subsistência.

As lavouras de café, algodão, milho, feijão e arroz vão cedendo lugar a plantações de figo, maçã, uva, maracujá, tomate, verduras e legumes. As antigas tulhas e ranchos dão lugar a granjas que passam a engordar frangos e a acolher galinhas poedeiras. As culturas antigas não desaparecem de todo, mas já não têm a mesma extensão. O café, não apenas pela sua permanente lucratividade, como também pela tradição e respeito herdados dos antigos, continua a se fazer presente na agricultura helvetiana. Às vezes, como fonte de subsistência de parte dos membros de uma família, às vezes como fonte complementar de renda para os que se dedicam a uma outra atividade econômica e fazem do pedaço de terra que herdaram um lugar para o seu descanso nos fins de semana.

Mudou Helvetia ou mudaram os helvetianos? Certamente ambos. Não por vontade de um ou de outro, mas por determinações históricas das quais não poderiam fugir.
Helvetia se situa na divisa dos Municípios de lndaiatuba e Campinas, a uma distância de 8 e 20 quilômetros respectivamente. Não há como negar que ela ocupa um lugar privilegiado na geografia econômica, social e cultural do Estado de São Paulo.

Esta condição ela adquire justamente durante os seus cem anos. São unânimes os historiadores ao afirmarem que o desenvolvimento das cidades paulistas se deve a três fatores: a imigração, a expansão cafeeira e as estradas de ferro. Estes três fatores se juntam de uma forma plena na região de Campinas. Já falamos de modo bastante genérico dos dois primeiros. Quanto à expansão da malha viária na região, é importante lembrar alguns fatos e algumas datas: em 1867 a São Paulo Railway liga Jundiaí a S. Paulo. No ano seguinte, é criada e construída, com sede em Campinas, a Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Estas duas ferrovias desempenharam um papel de extrema importância na expansão da agricultura cafeeira, na medida em que permitiram o escoamento da produção do café até o Porto de Santos.

Mas outras datas são importantes para entendermos o desenvolvimento de Helvetia. No início do século, Helvetia já era cortada por duas rodovias de terra, a estadual e a municipal, ligando Indaiatuba a Campinas. Em 1913, com a construção da Estrada de Ferro Sorocabana, Helvetia é mais uma vez cortada e beneficiada por este importante meio de transporte, que durante três décadas foi vital para a sua economia. Nos anos 50, Campinas se liga a São Paulo pela Rodovia Anhanguera, e em 1978 pela Rodovia dos Bandeirantes. No início da década de 60, bem nos limites da Colônia, é construído o Aeroporto Internacional de Viracopos. Neste mesmo tempo se constrói a Rodovia Santos Dumont, a meio caminho das antigas estradas municipal e estadual. Em 1978 a Ferrovias Paulistas S.A. (FEPASA) corta mais uma vez Helvetia.

Industrialização e urbanização

Esta complexa malha viária é acompanhada e se liga intimamente ao fenômeno da industrialização e da conseqüente urbanização da região.A industrialização do País, que tem no Estado de São Paulo o seu centro principal e que veio alterar o perfil agro-exportador da economia nacional, se inicia nos anos de 1930 e se consolida a partir dos anos de 1950. Este surto industrial, inicialmente localizado na grande S. Paulo, logo se expande pelo interior do Estado, transformando Campinas e cidades vizinhas num grande parque industrial. A população da região se multiplica na mesma proporção e os perímetros urbanos se alargam num ritmo acelerado.

Helvetia, que nas suas origens e nos seus primeiros 50 anos de existência fora uma grande região agrícola, aos poucos se vê cercada por bairros e vilas das periferias urbanas de lndaiatuba e Campinas.

Como barreiras, a preservar ainda o seu aspecto rural e campestre, ela tem, na direção leste, o Aeroporto de Viracopos e a Rodovia dos Bandeirantes, e na direção oeste a Ferrovias Paulistas S.A. Nesta mesma direção, e como fator que dificulta uma urbanização mais intensa de sua área, localizam-se dois empreendimentos imobiliários de elevado padrão, representados pelo Helvetia Polo Country e Chácaras Polaris. São condomínios residenciais constituídos por unidades que variam de 1.000 a 6.000 m2 habitados mais intensamente nos fins de semana e nos períodos de férias por seus proprietários, na sua maioria residentes na cidade de São Paulo.

Ao longo do Vale do Rio Capivari-Mirim se localizam as propriedades dos helvetianos, descendentes da 3.a à 5.a geração dos fundadores. A extensão dessas propriedades é bastante variada: dois, cinco, dez e, mais raramente, vinte ou mais hectares. Muito pequenas em relação às anteriores, mas altamente valorizadas e cobiçadas. Existem ainda uma ou outra fazenda, mas se constituem em exceção e se localizam na direção norte de Helvetia, ainda pouco atingida pela urbanização. Todos estes fatores explicam porque a grande maioria dos helvetianos já não se dedica mais ao setor primário da economia, a agricultura.

Alguns poucos atuam no setor industrial, outros no comércio ou serviços. Muitos são empregados nos mais variados escalões das empresas privadas ou públicas. Outros se dedicam a profissões liberais. Poderá ainda perceber em que lugares fixaram sua residência.

Em que setores da economia aplicaram os helvetianos os recursos auferidos com a venda de propriedades, pressionados pela urbanização? Fundamentalmente em imóveis urbanos e no mercado financeiras, ressalvadas as aplicações em atividades industriais, comerciais e de serviços de que falamos acima.

Difícil avaliar o sentido histórico e social das mudanças ocorridas ao longo destes cem anos. Teria havido progresso ou regresso? Evidentemente, o desenvolvimento da região permite aos helvetianos de hoje o consumo de bens materiais e culturais impensáveis no tempo dos Fundadores. Da mesma forma, a complexidade da vida moderna traz novos desafios aos jovens de hoje.

Se tomarmos a qualidade de vida como critério de avaliação, acreditamos que os helvetianos de hoje não podem se queixar. Evidentemente a história não trata todos os homens da mesma forma. Nem todos encontram sempre as mesmas oportunidades. Isto é verdade, não apenas hoje, mas a cada momento destes mais de cem anos de história de Helvetia.